Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

Sempre junto ao coração

 

Por muito que queiramos, por muito que façamos, não existem muralhas que nos protegam da vida, do tempo e das suas consequências. O que podemos é prepararmo-nos mentalmente e apoiar-nos em que nos pode ajudar a superar momentos menos bons... sózinhos é muito mais difícil.

 

"Todas as manhãs, percorria a calçada de granito que rodeava a areia fina e branca, em direcção ao mar. Sentado já, descalçava as sapatilhas, enterrava os pés na areia semi-molhada e enrolava os dedos nos grãos finos, numa espécie de auto massagem relaxante. Apoiado sobre os cotovelos, fechava os olhos e elevava a face ao céu, inspirando profundamente nesse momento as minúsculas gotas de água salgada impregnadas na brisa suave. Interessante como conseguimos aumentar a intensidade de um dos nossos sentidos desligando os outros. Pelos ouvidos entra a ondulação do mar calmo, na minha mente geram-se imagens coloridas da minha pessoa, criança a chapinar, na praia do Castelo do Queijo, por entre poças e algas, por entre rochas e areia grossa que magoava os meus pequenos pés. O ui-ai desse momento ouvi-o agora, límpido, claro como se o estivesse a sentir agora. Teci um sorriso de felicidade instantânea com esta recordação.
 
Sinto-me bem assim, pensava eu. Construí o meu mundo, criei as suas portas e janelas e guardo as chaves comigo, não as dou a ninguém. É tão mais fácil viver assim! Com uma sensação de satisfação pela intensidade da vivência passada, pensava que desse momento em diante nada mais de diferente queria sentir, queria apenas paz, comigo, com a vida.
 
O telemóvel tocou nesse momento e o arrependimento, que tantas vezes associamos a um pensamento afastado com um bater de dedos em madeira, nunca foi tão sentido. Desliguei o telemóvel, atirei-o para o chão, ele desapareceu por entre os grãos de areia. Desejei tanto nesse momento não o voltar a encontrar e fingir que aqueles últimos segundos não tivessem existido. Cabisbaixo e de mãos nos joelhos, olhos na escuridão, ouço uma lágrima afastar a areia, como se de um meteorito se tratasse. A minha avó tinha falecido… "
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publicado por jangadadecanela às 13:04
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14 comentários:
De Subjectividades a 28 de Maio de 2008 às 14:18
Olá luís!
Comoveu-me o teu texto! Tu também és uma pessoa linda.
Quero dizer-te ou melhor fazer-te sentir que não estás sózinho. Nada poderá reverter o que aconteceu mas como tu dizes os amigos podem ajudar a suportar e superar esses momentos. Eu vou aqui atrever-me a dizer que como tua amiga estou solidária com a tua perda!
Um abraço bem apertado de coração!
De jangadadecanela a 28 de Maio de 2008 às 14:23
Obrigado Isabel,

Mas é melhor esclarecer, ja perdi a minha avó há 5 anos apesar de parecer que ainda foi ontem. Ela continua a ser uma referencia na minha vida...

Abraço,
Luís

De Subjectividades a 28 de Maio de 2008 às 14:25
O tempo Luís não tem importância nenhuma nos afectos! Pode ter sido há 5 anos mas aposto que essa lágrima ainda cai hoje!

Abraço
De jangadadecanela a 28 de Maio de 2008 às 14:26
Sim... cai.

De pingodemel a 28 de Maio de 2008 às 14:43
sabes Luis?...eu ainda tenho as minhas duas avós ... e adoro-as, nem quero sequer pensar que um dia as coisas podem mudar... não sei lidar com a morte ... e acho que nunca vou saber...
um abraço
De jangadadecanela a 28 de Maio de 2008 às 15:05
a mim apanhou-me de surpresa... e a vida mudou... os natais, a páscoa, os eventos de familia... era ela que, sem fazer nada, existindo apenas, que mobilizava todos...

penso que ninguem consegue lidar com a morte, conseguimos depois é minimizar o choque com o tempo, adequando-nos a uma nova realidade.

um abraço
Luís
De MIGUXA a 28 de Maio de 2008 às 19:26
É bom recordar...ainda que após uma perda enorme como essa o foi para ti, ficam sempre as boas lembranças, aquelas que nos acompanham para sempre e que guardamos num cantinho do nosso coração e que revivemos quando sentimos falta...

Dói a perda de alguém que amamos muito mas, após o impacto forte é possível serenar o nosso espírito e continuar a amar para além e para sempre.

Beijo
Margarida
De jangadadecanela a 29 de Maio de 2008 às 10:14
Olá Margarida,

Hoje em dia é bom recordar apesar da saudade. Mas o que me recordo é dos momentos simples e bons da sua companhia, das suas conversas... já serenei e por isso, ela me acompanha sempre.

um abraço,
Luís
De maria a 28 de Maio de 2008 às 21:41
A morte dos avós é sempre um momento dramático para uma criança/jovem (e de resto para toda a família). aquela pessoa que tanto amámos morreu! e depois tudo muda; se já não existem os avós, deixou de existir o pilar que juntava tios, tias e primos.
A morte; só podemos dar valor à vida, se tivermos presente a morte. todos vamos morrer, convém fazer alguma coisa de valioso com a nossa vida. e já agora muita atenção aos nossos afectos. aos nossos pais, aos nossos avós...
e hoje deixo uma questão: o que é que a nossa geração (dos trinta, dos quarenta) tem feito à família, aos afectos?? somos mais informados, fomos à universidade, somos sem dúvida mais independentes e mais senhores da nossa vida, queremos ter uma vida amorosa fabulosa, mas será que damos valor e reflectimos sobre a vida e a morte daqueles que nos rodeiam??
boa noite!
De jangadadecanela a 29 de Maio de 2008 às 10:16
Olá Maria,

Tens razão, hoje em dia vivemos mais isolados (pelo menos isso acontece comigo e com a minha familia) mas os laços, penso que estão sempre lá. hoje em dia é a minha mãe o fio condutor da familia, é à volta dela que nos reunimos...

um abraço
Luís
De Velucia a 29 de Maio de 2008 às 03:33
"COM PACIÊNCIA"

Provações te buscaram.
Dificuldades te agitam.
Tudo parece noite ao redor
de teus passos.

Não te detenhas, no entanto,
a fim de medir as sombras.
Prossegue trabalhando e
não te afaste da paciência.

Por nada te desesperes.
Dá tempo a Deus para que
Deus te acenda nova luz.

(Emmanuel) recebida por:
Francisco Cândido Xavier.
Livro: Livro de Respostas - Edição CEU.

De jangadadecanela a 29 de Maio de 2008 às 10:17
Olá,

o tempo... o tempo ajuda a curar tudo, a remediar o errado...

a verdadeira cura... está em nós!

obrigado pelo texto que aqui deixaste Velucia,

Abraço
Luís
De Café com Natas a 29 de Maio de 2008 às 08:15
Há momentos que nos assolam deixando um nó na garganta, mas as memórias de ternura acabam por nos acalmar.
Perdi a minha há 12 anos... não consegui assistir ao seu funeral. Fiquei sentada à porta da igreja como que recusando uma despedida. Ainda hoje tenho o som daquele sino a ecoar-me com tanta intensidade.
Beijinho para ti
De jangadadecanela a 29 de Maio de 2008 às 10:20
Olá,

Sim, acalmamos com o passar do tempo. Aconteceu-me algo parecido no funeral da minha avó. Eu entrei na igreja e fiquei a olhar para ela não sei quanto tempo á espera... à espera que se mexesse...
até que a cobriram... e a levaram... aí, aproximei-me e ajudei a leva-la...

Um abraço
Luís

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