Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

Caminho

 

O céu nunca me pareceu tão baixo, tão perto, tão pesado, como se uma mão gigante o estivesse a pressionar contra o chão. A estrada escura de alcatrão amassado pelos anos ondulava pelo bosque que nessa noite timidamente se descobria, sob aquela túnica cinzenta do ar húmido e pesado. Os faróis do carro alugado no aeroporto, um histórico citroên dois cavalos do tempo dos meus avós, pouco ajudavam a abrir caminho. Pensei eu que o passeio seria mais romântico assim mas a verdade é que a pouca segurança que sentia no volante enorme e fino me deixou preocupado. Larguei a tua mão que normalmente entrelaço na minha quando fazemos grandes viagens para segurar firme o volante ao mesmo tempo que deixei que um ruído incómodo se apoderasse do espaço. O som de lata do motor tomou conta do nosso silêncio. A tua mão segurou a minha perna direita como se pedisse abrigo do momento.
Esta noite devia ser uma noite perfeita. Até a hora do nascer do sol tive o cuidado de descobrir. E agora, de nada irá servir. Agora, só importa chegar ao hotel que nos espera, quente e principalmente seguro, nesta noite de tempestade.
A cidade surgiu como um esquiço a carvão, tanto era o nevoeiro que a engolia, traçado pela chuva incessante que caía na diagonal, empurrada pelo vento. Soltei ao ar um leve suspiro de alívio, a minha mão pousou sobre a tua e no silêncio que as nossas vozes emprestaram ao momento, ouvimos um “está tudo bem”.
Reconheci a entrada da cidade, vantagem de hoje em dia podermos facilmente visualizar qualquer ponto do mundo através da internet. Por isso, dali até à porta do hotel foi um segundo. Procuramos abrigo por baixo do toldo que ladeava a entrada e rapidamente nos dirigimos á recepção.
De mão dada, senti o frio que cobria os teus dedos. Abracei a tua mão mas minhas enquanto dei o meu nome e bilhete de identidade à recepcionista. Aguardamos alguns segundos pela indicação do quarto e foi o tempo suficiente para me perder no fundo do teu olhar. 119. 119. 119!!!  Sorri quando me apercebi que me tinha ausentado e que a recepcionista estava com um ar estranho a olhar para mim, uma mistura de sorriso cúmplice com a seriedade própria de quem tinha mais que fazer.
Subimos até ao segundo andar pelas escadas de madeira curvadas pelo caminhar dos milhares de pés que já por ali terão passado. Pensei na quantidade imensa de gente que já ouviu o barulho daquelas tábuas sob o seu próprio peso. Não deixa de ser uma forma curiosa de cumprimentar quem passa. 117… 118… 119. Paramos. Pousei a mochila e a mala no chão, olhei para ti mais uma vez, sorri. Os meus olhos falaram com os teus, disse-te que não queria estar em outro lado, porque é ao teu lado que me sinto bem, que me sinto em casa. Com a chave na mão esquerda procurei o buraco da fechadura, rodei-a sobre a porta. Ouvi o som metálico que soltou o batente da madeira. Com a mão direita abri a porta que dava para o hall. Olhei para ti, mais uma vez. Ainda hoje olho com a mesma frequência, estejas tu acordada, a dormir, atenta ou distraída, ausente ou presente. E sempre me perco nesse teu mar profundo. Nesse teu mar onde navego sem receio de me encontrar só.
Num gesto contínuo, a minha mão esquerda procurou as tuas costas, a direita as tuas pernas, mesmo acima dos joelhos e assim te elevei no ar, no mesmo ar que respiramos e que agora te segura, comigo. Encostei-te a mim. Os meus lábios sedentos de ti saciaram-se na tua boca com sabor a céu. As tuas mãos no meu pescoço desenhavam ondas de carinho na minha pele, ondas de energia que se conduziam ao profundo do meu ser. E assim entramos, num espaço, para o inicio de um tempo, de mais um momento, de mais um pedaço do nosso caminho, caminho esse que se escreve sobre a nossa vida.
publicado por jangadadecanela às 15:37
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